Intercâmbio as Cegas no Canadá – A Viagem – Parte 2

Olá pessoal,

Estão preparados para embarcar no avião, rumo ao desconhecido?

Continuando a série intercâmbio as cegas no Canadá, vamos contar nesse post desde os últimos preparativos, ida ao aeroporto, desembarque no Canadá, encontro com a família, até a chegada em casa.
Já adianto que rolou de tudo um pouco, insegurança, empolgação, estranhamento, dúvidas, micos…
Então apertem os cintos, e boa viagem!

Quase Lá!

Conforme contamos no post anterior, viajaríamos em Agosto de 2010. Em Julho, a agência de viagens nos informou o e-mail da família que iria nos hospedar,para que começássemos a nos conhecer. Estávamos bastante apreensivos quanto a esse assunto, pois a família, na verdade, poderia fazer da nossa estadia um paraíso ou um prejuízo.

Já no primeiro e-mail, nos deram as boas vindas e também demonstraram grande alegria em nos receber. Uma dessas demonstrações foi o fato de escreverem as frases todas em letra maiúscula, isso mesmo, o que fazia com que o leitor de telas s o l e t r a s s e tudo em vez de ler! Foi lá então o Marlon já começando a explicar que por favor escrevesse em letras minúsculas para que conseguíssemos entender o texto de uma maneira mais fácil, uma vez que usávamos no computador um programa que lê a tela e blablabla…
Nos deram as boas-vindas e já se prontificaram a nos buscar no aeroporto alegando que, desta maneira, não precisaríamos pagar a escola pelo translado, o que era verdade, mas também nos disseram que não queriam que os taxistas nos enganassem quanto ao valor da corrida. Claro que achamos um pouco exagerado, como os taxistas canadenses são malvados, mas era bastante conveniente e aceitamos de bom grado. Na verdade, acho que eles ficam mais seguros em buscar os estudantes, porque fizeram o mesmo com um garoto do Japão que chegou lá no dia em que voltamos.
Enfatizaram que nos ajudariam em tudo o que precisássemos , nos levariam em lojas para comprar coisas e tal, e realmente demonstraram bastante euforia.

Então chegou o grande dia. Minha família, para ser mais precisa meus pais e minha irmã com seus 2 filhos, vieram para São Paulo uma semana antes da viagem para nos apoiar.
A comitiva que nos levou até o aeroporto contava ainda com um casal de amigos, além dos meus familiares. Por alguma razão, viagens internacionais causam uma sensação de distanciamento maior do que as nacionais. Se fôssemos ficar um mês em Recife, ninguém apareceria em casa. Mas como iríamos para longe, lá foi toda a tropa nos acompanhar.

Marlon:
Apesar de tudo, aquelas pessoas queridas junto de nós me confortaram mais do que eu consigo falar. Em viagens futuras nem sempre seríamos tão acompanhados assim, mas nesta primeira isso foi, ao menos para mim, bem importante.

Atena:
Ao fazer as malas, tentamos deixá-las bem identificadas e identificáveis, com fitinhas coloridas para ajudar na localização.
Como havíamos chegado ao aeroporto com mais antecedência do que o necessário, o check in para nosso voo ainda não estava aberto. Avisamos os funcionários da compania de que estaríamos esperando em um restaurante próximo, onde deveriam nos buscar assim que o procedimento começasse.

Nossos familiares e amigos Nos acomodaram e claro, obviamente foram embora! Voltaram para casa!!
E agora meu?
2 ceguinhos sozinhos! Meio espertos mas ainda sim sozinhos!
Indo passar um mês em um país do outro lado do continente! Na casa de desconhecidos! Em uma cidade desconhecida! Numa escola desconhecida! Com pessoas desconhecidas!
Nesse momento, perguntas meio bobas nos passam pela cabeça. O chão é igual? O ar para respirar é o mesmo? Vou me perder da vida e cair para sempre no esquecimento!?
Lembrando que esses devaneios foram do Marlon, certo, eu só estava empolgadíssima!

Marlon:
Bem, tem gente que deve ter ingerido algo líquido antes de viajar, só pode!

Atena:
Antes de prosseguirmos, é importante esclarecer que uma pessoa cega de nascença, por mais que seja bem orientada e instruída, não tem todo o contexto visual sobre outros países que as demais pessoas normalmente têm através de imagens, filmes e tal.

Depois de algum tempo o pessoal da compania aérea nos buscou, e os procedimentos de embarque foram seguidos. Viajamos pela Air Canada, primeiro em um voo até Toronto, quando então seguiríamos para Vancouver, que fica do outro lado do país, para o oeste. Como estávamos devidamente acompanhados, era só seguir as orientações do funcionário da compania.

Não vamos neste post detalhar os por menores do embarque e desembarque, sabe por quê? Porque, para não desfocarmos muito da narrativa, fizemos para vocês um post exclusivo sobre como é andar de avião. Para aqueles que tiverem interesse, por favor Confiram o post, onde tentaremos contar, conforme nossas experiências, o que acontece na hora do embarque, passagem pelo raio x , percepções sobre um avião internamente e como é a sensação de voar.

Chegando no Canadá

Logo que entramos na aeronave, já começaram os informes gravados, em inglês, francês e português. Um dos comissários era de Portugal, e não tivemos problemas para nos comunicar com os demais que falavam só em inglês. Não tivemos problemas aspas… Imaginam o que possa ser né… Já já passo a palavra para uma ilustríssima pessoa que viajava comigo.
Do que mais me lembro nesse trecho de mais ou menos 10 horas de voo foi a sensação de que parecia que nunca mais iríamos chegar.
Disso e também de uma comida horrível que foi servida no café da manhã. Parecia um omelete meio cozido no micro ondas, com cheiro de ovo cru, gosto de ovo cru, e aparência de um bolo polenta com muitos ovos crus. A, também me surpreendeu uma opção de refri de gengibre, o Ginger Ale, lembra um pouco a nossa gengibirra. Já imaginaram a simpática aeromoça te oferecendo … “o que o senhor deseja: coca, soda, Fanta ou gengibirra?” Pois é, isso mesmo. Interessante que a maioria das pessoas canadenses com quem conversamos, usaram o termo “soft drink” para refri, nos EUA é mais comum “soda”. Também lembro que me deram uma garrafinha de água bem bonitinha, que virou de estimação, até sumir por aí.
A claro, vou passar a palavra para uma pessoa que por a caso viajava comigo e tem algo a declarar.

Quase encrencas – por Marlon

O que você faz quando está em seu primeiro voo internacional e indo para um lugar onde deverá usar o idioma em todo o tempo em que lá estiver? A resposta é muito simples ,,, começa a treinar o quanto antes!
Portanto, se os comissários do voo falam inglês você começa a treinar ali mesmo. Mas quando se está ligeiramente em pânico por estar em seu primeiro voo internacional indo para um lugar onde deverá usar o idioma durante o tempo todo em que lá estiver … você fica bem sem noção.
Assim, quando optei por apenas falar inglês com os comissários e fui atendido por uma educada mulher falando bom inglês nativo no meio do avião com todo aquele ruído dos motores e tendo que ser rápido pois ela precisava continuar a atender aos outros passageiros, solicitei a ela um kidnap. Ela parou imediatamente o que estava fazendo e me pediu para repetir, ao que eu novamente lhe solicitei um kidnap, mostrando a minha boca. Ela então perguntou se eu queria um napkin, ao que eu disse claro! Nesse momento, me dei conta de que havia dito a ela que queria sequestrar crianças ao invés de pedir um guardanapo! E ainda tinha reconfirmado…

Risadinhas meio constrangidas e bola pra frente… Quando acabaram de servir a comida veio a parte das bebidas. Então, ela, a mesma atendente, me pergunta qual a bebida que eu quero, e eu respondo sem pensar duas vezes: “give me a cocaine”. Dessa vez, a Atena que caiu na gargalhada e eu percebi, algo transtornado, que havia pedido por cocaína em vez de “coke can” ou lata de coca.
Mais risos e gargalhadas, bebi a minha coca e me senti ótimo ao, na chegada, não sair do avião diretamente para algum interrogatório policial ou algo assim.

Atena:
Com sorte de não termos sido presos pelas façanhas do Marlon, chegamos em Toronto , onde faríamos conexão para Vancouver. Ao desembarcarmos, 2 funcionários nos aguardavam com cadeiras de rodas. Ao nos verem descer andando, só levemente questionaram se não ´precisávamos das cadeiras e, ao respondermos que não, um deles já começou a nos guiar, enquanto o outro foi fazer outras coisas.
Eu esperava sair do avião e sei lá, tinha minhas dúvidas de como seriam as coisas, inclusive coisas bem básicas.
Mas o mundo continuou normal, mesmo no Canadá, o aeroporto era só um aeroporto, com paredes e chão, escadas, elevadores, pessoas, banheiros, restaurantes…
Até parece que estávamos viajando para outro planeta.. Que sem noção não acham?
Claro que estou falando de sensações, mesmo sabendo na teoria que nada é tão diferente, a gente fica tão curioso que espera por algo inimaginável.
E o melhor, o funcionário da compania falava inglês! Isso mesmo, ele reconhecia as minhas perguntas e eu entendia as respostas!
Sempre ouvi relatos de amigos que alegam ter ficado perdidos, não entendendo nada de nada.
A questão aqui também é um pouco mais profunda. Eu estudei inglês por anos, sempre achei que precisava melhorar, nunca tive a falsa ideia de que meu inglês fosse impecável. Talvez algumas pessoas subestimem o aprendizado de uma nova língua, e, só por que tiveram algumas aulas ou entendem alguns trechos de séries na TV, já acham que são fluentes. Então, quando caem na real, se dão conta de que não é bem assim.

Marlon:
Ao contrário da Atena, aprendi boa parte do que sei de inglês sozinho, após ter uns dois anos de aula. Mesmo tendo vindo de uma experiência radicalmente diferente da dela, também não considero meu inglês fluente e a postura de respeito diante de um novo idioma é algo que nós dois compartilhamos bastante.

Atena:
De qualquer forma, pelo menos para mim, foi tudo acontecendo de maneira suave e tranquila.
Na imigração tudo também ocorreu muito bem, tanto que nem me lembro de como foi exatamente.
Acho que eu e o Marlon quase que respondíamos as perguntas meio juntos, e ainda bem que com as mesmas respostas.
O momento da imigração é o ponto mais perigoso da viagem, pois é naquele balcão que o agente pode simplesmente suspeitar de você, te fazer mais perguntas, te levar para uma salinha privada, ou em último caso te barrar a entrada no país dele. Como essa entrevista ocorre depois de muitas horas de voo, é comum você estar meio zureta e falar bobagens. Deixe sua documentação na mala de mão, bem fácil de ser encontrada. Documentos como: passagem de volta, matrícula de escola, reserva de hotel, contrato de seguro e tal. Mantenha a calma, responda só o que te perguntarem, se for necessário, antes de viajar pesquise sobre a possibilidade de utilizar um intérprete.
Bem, como consegui controlar o marlon para não falar besteiras, fomos aceitos, e estávamos legalmente no Canadá.

Então fomos buscar as malas na esteira, pois nosso próximo voo era doméstico, o que fazia com que tivéssemos que pegá-las. O funcionário era bastante divertido, ficou zoando quando perguntou a cor da mala e eu disse preta. Disse que só tinha mala preta lá. Mesmo eu tendo colocado fitas coloridas nas malas não foi tão prático para localizar, então ele mesmo sugeriu para tirar uma foto das malas e facilitar no próximo desembarque.
Logo, aprendemos que, mesmo colocando fitas, mesmo tendo as etiquetas identificadoras, é importante sempre ter uma foto das malas para auxiliar quem vai retirá-las da esteira.
Outrossim, saber, sempre saber se as malas vão direto ou se será necessário pegá-las para passar pela alfândega, como era o nosso caso, uma vez que o próximo voo era dentro do país.
Geralmente, quando este é internacional, a bagagem é transferida diretamente, e então não se passa pela alfândega naquele momento, e sim, quando chegar ao destino final. Mas é bom sempre perguntar para o pessoal da compania no check-in o que exatamente vai acontecer.

O próximo voo durou umas 4 horas e pouco. O avião era menor e aí sim foi que me senti em outro país. Praticamente não havia brasileiros por perto, pelo menos eu só ouvia a galera falando em inglês. Os informes sonoros eram agora somente em inglês ou em francês. Não tinha serviço de bordo gratuito. Comprei um chocolate utilizando cartão de crédito internacional, devidamente habilitado para uso no exterior.

Chegamos em Vancouver no final da manhã. Aliás, esse foi um dia de 28 horas, e com o sol ainda por cima se pondo as 10 da noite: saímos de São Paulo por volta das 23:00 h, mais 10 horas de voo, mais 2 horas de conexão, mais 4 horas do segundo voo, e quando chegamos eram ainda por volta das 11 da manhã devido ao fuso, 4 horas a menos em relação ao de Brasília.
Ao chegarmos, um funcionário já nos esperava com um carrinho tipo de golfe, bem maneirinho e prático, porque cabia todo mundo, nós 3 e as malas.
Durante esse percurso no carrinho eu lembro que inspirei o ar da cidade, senti um leve frescor de brisa marinha, o que me deu uma sensação de alegria misturada com leveza. O trajeto ia diretamente por diversas áreas do aeroporto, então podíamos sentir, ouvir e cheirar lojas e restaurantes, em fim sentir a cidade que, a partir daquele momento, seria nosso lar por um bom tempo.

Quando atingimos a ária do desembarque, os nossos “padrinhos”, vamos chamá-los assim para ficar mais fácil, de pronto não estavam lá. Nos deixaram aguardando em uma salinha VIP, a moça do aeroporto ligou para eles e logo chegaram. Outra dica, ter telefones e endereços sempre a mão. Hoje já é bem comum conseguir pegar wi-fi em qualquer aeroporto, porém sempre tenha outra carta na manga para se comunicar com alguém. E claro, sempre levar algum dinheiro da moeda local para emergências. O risco máximo que dá para correr é precisar pagar um táxi até o hotel ou local onde se vai ficar, e isso se resolve com um pouco de dinheiro e papel com o endereço..
Telefones e endereço anotados em tinta são fundamentais porque a bateria do seu celular pode acabar, as pessoas podem simplesmente não entender o que você está falando, e é mais comum do que imaginamos nos depararmos com prestadores que praticamente não falam inglês, ou não falam o inglês que você entende.
Além de um sol de 28 graus, tivemos sorte de sermos recebidos por um pessoal com um bom inglês, o que nem sempre acontece.

Nossos padrinhos formavam um casal simpático, mas um pouco reticentes, acho que estavam 30 vezes mais apavorados que nós. Demonstraram surpresa e de certa forma tranquilidade quando começamos a nos comunicar em inglês, acho que perceberam que a comunicação não era uma barreira e que apesar de sermos cegos, ainda sim éramos pessoas comuns.

A conversa seguiu amena enquanto andamos uns 20 minutos ou meia hora em um confortável carro automático que, na via de regra, é o mais comum por lá.
Nosso padrinho era canadense e a esposa indiana. Tinham 2 filhos, uma garota de 9 e um garoto de 4 anos. A avó materna morava com eles para ajudar a ficar com os garotos, uma vez que crianças menores de 12 anos no Canadá não podem ficar sozinhas em casa. Ainda havia mais um outro estudante indiano morando conosco.
Vejam só que equívoco, fomos para o Canadá pensando no suave inglês canadense, mal sabíamos que o que mais encontraríamos seria indianos e pessoas com variados tipos de sotaques.
A verdade é que hoje em dia o inglês falado nas grandes e médias cidades é bastante diversificado. Assim, é bom não esperar encontrar aquele inglês didático de escola brasileira.

Ao entrarmos naquele que nos próximos dias seria o nosso lar, de supetão já fomos orientados a deixar nossos sapatos na porta, pois dentro da casa deveríamos usar outros calçados. Como as crianças brincam no chão, por questões de higiene, todos usavam chinelos para andar dentro da casa. Pois é, sim, eu achei diferente, acho que fiquei até meio desconcertada, mas coloquei o chinelinho que a madrinha nos ofereceu e continuamos… A final, só era o começo do começo! Isso aí, parece estranho sim, mas quando se vai para outro país tem que se preparar para lidar com situações diversas.

A residência era um sobrado grande, parte de madeira, com um quintal no fundo. Os estudantes ficavam hospedados no andar térreo, pois o andar superior era reservado para a família. Mesmo que não tenham dito isso de forma explícita, entendemos que só iríamos lá em cima quando fôssemos convidados.
Logo em frente a porta de entrada, ligeiramente à direita, ficava a escada. No mesmo ambiente, à esquerda, havia um espaço com brinquedos, e reto, ao lado da escada, um corredor.
A primeira porta à esquerda do corredor era o quarto do estudante indiano, e a segunda porta o banheiro dele. À direita tinha uma porta para a sala de controle do aquecedor e do gás. Seguindo em frente, no fundo do corredor, havia mais duas portas de frente: a da esquerda dava para o nosso quarto, e, logo a direita dela, estava a porta do nosso banheiro. Virando para a direita, chegava-se {a cozinha. Atravessando a cozinha de comprido, a esquerda tinha a porta dos fundos, , à direita mais um quarto, que foi em alguns dias ocupado por um outro estudante indiano.
Sumariamente era isso, com mais alguns outros locais que não lembro.

Logo que chegamos, nossos padrinhos Nos apresentaram aos filhos. A menina reagiu muito tranquilamente, o garoto ficou meio assustado mas em poucos minutos já se tornou nosso amiguinho. Curioso que o garotinho foi quem pronunciou meu nome da maneira mais próxima ao que falamos, pois ele ouvia o Marlon me chamar e imitava direitinho, enquanto que os adultos adaptavam a pronúncia ao sotaque do inglês, algo como dizél.
A Mama, ou seja a avó, era uma senhora indiana bastante calma e gentil. O outro estudante também pareceu ser bem gente boa, quase um lord britânico, com uma voz indiana bem típica, assim meio rouca.
Todos disseram que nosso inglês era bastante bom comparado com os outros estudantes que frequentemente recebiam, o que nos causou uma certa surpresa, pois nunca tínhamos saído do país nem vivido situações tão reais com o uso da língua. Até chegaram a dizer que poderíamos nos passar por locais se não falássemos demais. Então questionei se ao falarmos frases mais longas já demonstrávamos nossa estrangeirice, e responderam que não era nem tanto pela estrangeirice, mas sim porque mostraríamos que éramos turistas ao sermos demasiadamente cordiais e curiosos. Eu, curiosa?
assim que acomodamos as malas, nos serviram de lanche um hachbrown, que é um salgadinho frito de batata no formato triângulo, parece uma fatia de pão cortada na metade. Em seguida fizemos um reconhecimento do ambiente que acabei de descrever, e os donos da casa nos mostraram a localização das principais coisas que iríamos usar e tal.

Coisas diferentes que notamos de cara:
o galão de leite é enorme;
os tubos de catch up e mostarda também são enormes;
sanduíches e até mesmo pizza normalmente se comem com a mão, sem usar talheres, aliás, falavam o tempo todo que comer pizza com garfo e faca é coisa de brasileiros;
o chuveiro é meio estrambólico para abrir e é comum ter banheira nos banheiros. Ai que alívio! O local de fazer xixi não era um alienígena! e sim um vaso sanitário!

O restante do dia transcorreu normalmente. Descansamos a maior parte do tempo e, mais à noite, fomos a pé até uma loja 7-eleven para comprar nosso bloquinho de bilhetes de ônibus e metrô. Até conseguiríamos gratuidade, mas deveríamos ter enviado um pedido com bastante antecedência e não tínhamos pesquisado sobre isso.
No caminho até a loja notamos alguns semáforos sonoros, outros que contavam quantos segundos faltava para abrir. As calçadas em geral eram bem plaininhas. Vamos esclarecer que estávamos em uma ária residencial de Burnaby, uma cidade grudada à Vancouver.
A 7-eleven é uma super loja de conveniências, que vende um pouco de tudo, desde chocolate até passe de transporte. As crianças compraram lá na loja um negócio que achei horroroso! Era uma espécie de frozen de refrigerante, chamado slurpee, me desculpem, mas tem mijo até no nome (pee em inglês é xixi)!

Era perceptível que a família estava bastante curiosa, meio espantada e tudo mais, porém tentaram nos deixar o mais confortável possível. Combinamos então que no dia seguinte a “madrinha” nos acompanharia até a escola para nos ensinar o caminho, rotina que fazia com todos os estudantes novatos.
Quando deitei na cama, a, como foi bom deitar naquela cama… Primeiro que era uma cama normal, segundo que, até ali, as coisas tinham acontecido bem e estávamos literalmente conquistando nosso espaço.

Pronto, até então tínhamos sobrevivido e uma das etapas mais difíceis estava concluída com sucesso.

No próximo post, contaremos sobre nosso primeiro dia na escola! Falaremos da experiência de aprender andar na cidade, conhecer outros alunos, em fim, como começamos a nos articular para construir nosso ritmo de vida dos próximos dias.

Mas antes ….

Esclarecendo encrencas, por Marlon

Meus pais não são, digamos assim, muito planejadores em termos de deslocamento. Acompanhar as decisões de quem vai para onde sempre foi complicado, mas depois que eu casei e fui morar na minha casa isso ficou praticamente inviável.
Tendo dito isso, combinei com minha mãe que eu ligaria para ela assim que chegasse em casa e, na oportunidade, aproveitaríamos para contar ao meu pai onde de fato eu estava.
Se puder acrescentar uma dica a tudo o que já falamos, sugiro que você coloque créditos no skype antes de ir viajar. Eu não coloquei e, na tentativa de fazê-lo, já bem instalado na minha casa no Canadá, falhei. Eu nem sei a razão, mas o site do skype parecia estar especialmente inacessível naquele dia.
Mas sem problemas: eu liguei do telefone mesmo, a cobrar. Tentei ligar para casa, onde minha mãe deveria estar esperando, um tanto ansiosa, na frente do telefone pela minha ligação. Porém o telefone tocou e tocou muitas vezes e, da segunda vez que tentei ligar, meu pai atendeu. Ouvi ele falar o familiar “alou” e, fiquei aterrorizado quando, ao começar a falar, uma gravação entrou na minha frente e o avisou de que ele estava recebendo uma ligação internacional a cobrar do Canadá … Oooopa!

E assim meu pai ficou sabendo onde eu estava, sem que eu pudesse ter tido a chance de explicar. Logo vieram muitas perguntas indignadas. Eu o avisei de que estávamos bem e de que toda noite ligaríamos para eles, o que realmente fizemos praticamente em todos os próximos dias. Quanto a minha mãe, ela havia ido para a praia de última hora e me deixado, sem saber, em uma fria só, risos.

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